Receita para reencontrar seu amigo imaginário

para Keldy

Sei. Ele não deixou nenhum sinal, nenhuma explicação.  E você esperou e perdeu a esperança e esqueceu, mas no fundo continuou magoado. Você cresceu e virou um magoado. Eu sei, mas é preciso dar uma festa.

Explico: o caminho mais curto para reencontrá-lo é organizar uma festa. Para isso, você deve convocar todos os bichos da sua infância. Tente não esquecer nenhum. Pesquise pra onde foram e mande navios de convites.

Então, na hora e no dia marcado (ajuda se for o seu aniversário), prepare um bolo de mentira. E cante. Cante. Eles vão chegar. Não se assuste. Eles vêm de longe, sujos e vencidos. Ursos caolhos, leões pelados, bonecas sem perna e sem braço, mas com um sorriso inabalável. Eles vêm por você.

Chegarão também os monstros. Monstros de todas as cores e formatos, velhos e pacificados como heróis de guerra. Te olharão com certa ironia e inaugurarão mesas de baralho, canecas de cerveja e urros, fofocas, pulgas. Os monstros e sua gentileza sinistra.

Agora você não está mais no controle. A festa avança, gargalha, estala como um brinde. Os bichos rejuvenescem, brigam e transam.  Fazem vaquinha usando seu dinheiro. Observe quieto. Está tudo bem. Tudo sempre esteve fora do seu controle e sempre esteve bem. Não fique constrangido. Nem espere pelo seu amigo como uma noiva no altar, esmagando o buquê. Espere só. Beba guaraná, corte o bolo, tire os sapatos pretos, cante mais. E quando todos estiverem contentes e saciados. Quando as bonecas sacudirem as anáguas e voltarem à sua majestade pobre, quando os ursos se abraçarem aos cachorros gatos e todos bêbados se carregarem de volta pra de onde vieram, quando tudo terminar de se apagar e se perdoar e você perder as esperanças de novo, uma sombra estará na porta.

Você a reconhece e ela te reconhece. Um abraço se aperta na sua garganta. Será?

Na parede se abrem pontinhos luminosos, parentes dessas cobrinhas de luz que a gente vê o tempo todo. E de repente, Deus, de repente você se pergunta se foi digno o suficiente, se foi forte e se foi bom. Você se pergunta e a sombra se aproxima devagar. Seu coração trapezista põe a cara pra fora. Você aperta os olhos no escuro e quando os abre de novo seu amigo está bem perto. Bem perto.  E vocês se olham, se estranham, se coçam, se apertam. Vocês ficam realmente muito parecidos quando dão risada.

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Sobre juliana bernardo

Poeta, taróloga e mochileira. Publicou Carta Branca e Vitamina (Patuá, 2011| 2013). Desde 2012, organiza saraus, debates e rodas de conversa sobre escrita e publicação. Coeditou a Coleção Edições Maloqueiristas (2014), que reuniu 26 títulos entre poesia, ficção e teatro marginal. Cursou Filosofia, na USP, e escreve sobre as medicinas da floresta e o candomblé. Também atua como terapeuta de ThetaHealing. Agende sua consulta de Tarot ou TethaHealing! orugidodoleaonaocabenajaula@gmail.com 11 966815823 Ver todos os artigos de juliana bernardo

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