O olho mágico da poesia: sobre o livro Vitamina, de Juliana Bernardo

Por Frederico Barbosa

 

Foi Ezra Pound quem disse que escrever poesia até os 24 anos é normal, o difícil é continuar a fazê-lo depois. O poeta americano não explica exatamente porque estabeleceu essa idade limite, mas podemos com facilidade depreender que se trata de um momento em que a “liberdade” da poesia é esmagada pelas obrigações da vida adulta: família, dinheiro, emprego, etc. Aquele que consegue escapar de todas as tentações do mundo dito “sério” e ainda se preocupa em construir objetos verbais lúdicos e comoventes, popularmente conhecidos como poemas, este é que de fato será reconhecido como poeta.

       Quando o livro Vitamina for lançado, Juliana Bernardo terá acabado de completar 24 anos. Lançou seu primeiro livro, Carta Branca, aos 21 anos. Muita coisa mudou neste curto período. A poeta tornou-se conhecida em eventos, saraus e reuniões de poetas paulistanos, mostrou sua poesia pela cidade, articulou-se a outros poetas na guerrilha diária de levar poesia às bibliotecas, centros culturais, praças e ruas da cidade. Agitou. Sempre com a sutileza, a docilidade e a discrição que lhes são características.

E não há leitor dos seus dois livros que não fique tentado ao trocadilho: sua poesia se vitaminou… ou seja, se tornou mais forte, mais encorpada, mais sólida e robusta. Mas o que pode ser a “vitamina” da poesia? O que pode tornar uma poeta mais sólida?

Há poucos caminhos, mas todos precisam ser trilhados simultaneamente. O estudo da tradição poética, o treino da observação, a depuração dos sentimentos e o aprofundamento da reflexão. Algumas tiradas do seu primeiro livro já mostram uma Juliana Bernardo capaz de aprofundar de forma muito séria no sentimento da contemporaneidade:, “Parece que deus trancou todas as portas para nos observar pelos olhos mágicos dos outros.” Ou capaz de sintetizar magistralmente reflexões sobre a eterna disputa entre gêneros: “palavra de mulher: homem nenhum morreu de parto”.

Poemas inteligentes e epigramáticos surgem com ainda mais força neste Vitamina:

                      relacionamento

como transformar muitas em uma
ou
                 cérebro, para de telefonar pros meus olhos!


Além do amadurecimento natural, é certamente o estudo da poesia o que confere mais força a Vitamina, quando comparado ao livro anterior. As figuras de Ulisses e Penélope rondam o livro obsessivamente, denotando uma leitura fresca da Odisseia de Homero, assim como as referências a Rimbaud e Victor Hugo, no belíssimo poema “Esmeralda”, revelam o estudo da literatura francesa.

       É no poema por mares nunca dantes navegados (invocação), que fica clara a consciência de que o estudo da literatura do passado pode auxiliar a se construir uma poesia mais forte, mais “vitaminada” no presente:

Camões,
a poesia é uma quitinete
sem porta sem janela
me ensina, meu velho
com teu olho cego a olhar
através dela


É como se Camões, com seu olho cego, fosse ensinar a observar a vida exatamente pelo “olho mágico” a que a poeta se referia no livro anterior. Ou seja, a erudição, o conhecimento da poesia do passado, ensina a ampliar os horizontes, sair da “quitinete” da poesia do presente.

E assim, Juliana Bernardo dirige seu “olho mágico”, vitaminada pelo conhecimento da poesia do passado, para questões fundamentais da contemporaneidade, como a afirmação da identidade feminina:

a quem diz que mulher nasceu pra esperar
respondo que mulher nasceu pra se atrasar
os quinze minutos de praxe
e pra chegar no ápice
como se escalasse o Everest num lance
e o ar rarefeito lhe desse o feitiço
de viver no transe
entre chegar e não chegar
no trânsito
entre depois e já
mulher nasceu pra fazer a mala
e partir sem se explicar

       Nesse poema, as rimas que tenderiam a enfraquecer o texto, dos verbos no infinitivo terminados em “ar”, são articuladas com tanta naturalidade a rimas toantes, que, ao contrário, colaboram para a construção de uma aparente simplicidade onde só há complexidade.

Juliana Bernardo, portanto, é uma poeta que completa 24 anos publicando um livro em que acrescenta à suas sensibilidade e capacidade de observação, mais reflexão e principalmente, muito mais conhecimento da poesia em si. Assim fica fácil vaticinar: eis uma poeta que veio para ficar!


Livro já disponível em: www.editorapatua.com.br

* * *

Frederico Barbosa é professor de literatura, organizador de oficinas de criação poética e crítica literária e performer de poesia, publicou nove livros de poesia como Nada Feito Nada (1993, Prêmio Jabuti), Brasibraseiro (2004, Prêmio Jabuti), com Antonio Risério e SigniCidade (2009), além de diversas antologias e obras didáticas. Foi curador da primeira biblioteca temática de poesia do país, a Alceu Amoroso Lima, em São Paulo. É Diretor da Casa das Rosas desde a sua reinauguração como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura em 2004.Fundou e, entre 2008 e 2010, foi diretor executivo da Poiesis – Organização Social de Cultura, que administra a própria Casa das Rosas, a Casa Guilherme de Almeida e as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Acaba de lançar, pela Editora Iluminuras, o livro Na Lata, reunindo toda a sua produção poética de 1978 a 2013. É colunista da Rádio Estadão com o quadro Poesia Viva e, a partir de 2012, membro do Conselho Curador do Prêmio Jabuti, da CBL. E-mail: fredtbarbosa@gmail.com

 

(via Portal Cronópios)

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Sobre juliana bernardo

Poeta, taróloga e mochileira. Publicou Carta Branca e Vitamina (Patuá, 2011| 2013). Desde 2012, organiza saraus, debates e rodas de conversa sobre escrita e publicação. Coeditou a Coleção Edições Maloqueiristas (2014), que reuniu 26 títulos entre poesia, ficção e teatro marginal. Cursou Filosofia, na USP, e escreve sobre as medicinas da floresta e o candomblé. Também atua como terapeuta de ThetaHealing. Agende sua consulta de Tarot ou TethaHealing! orugidodoleaonaocabenajaula@gmail.com 11 966815823 Ver todos os artigos de juliana bernardo

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