Não havia luar, um passeio pela prosa de Hemingway

“Não havia luar” é uma das poucas descrições do passeio de Liz e Jim, no conto “Lá em Michigan”, de Ernest Hemingway. Liz se sentia “esquisita” por amar cada detalhe de Jim, o ferreiro que não parecia ferreiro, e que “gostava da cara dela porque sempre estava alegre, mas nunca lhe dedicou um pensamento”. No outono, enquanto Liz não para de pensar nele, Jim vai com os outros homens caçar. Na noite em que retorna, bebe muito uísque, passa os braços ao redor de Liz e a convida para um passeio. E, embora ela estivesse “muito assustada e sem saber direito o que ele iria fazer”, Jim faz sexo com Liz sobre as tábuas ásperas do cais.
Eu me lembro que, com 19 anos, quando li pela primeira vez este conto, o “Não havia luar” me calou profundamente, e me fez pensar “nem um luar Hemingway deu pra essa mulher!”. Estava descobrindo o rubor, o apetite e a vontade violenta de pensar e escrever que sinto quando leio a prosa desse gênio da elipse.
Foi com o Hemingway que percebi que escrever é jogar com o silêncio, já que o que não se escreve sustenta o texto tanto quanto o que se escreve.
Para que isso aconteça, é preciso que as personagens possuam uma lógica interna tão presente em seus atos que até o que elas não fizeram (mas fariam) seja a estrutura da trama. E mais, que essas elipses abram justamente o espaço para que o leitor ajude a construir o texto, a força que faz girar o objeto literário, esse “estranho pião, que só existe em movimento”, como escreve Sartre em “O que é Literatura”.
Eu sei quem é Jim. Sei como ele pensa e como provavelmente vai agir. Jim só podia levar Liz às tábuas ásperas do cais. Liz só podia se assustar. Há vários Jim e várias Liz por aí, a literatura os apreende, e nos devolve o prazer perturbador de ler o gesto do outro. Pensar como o outro. A descrição do ambiente é a dica do autor para dirigir nossa leitura. Como neste conto, em que tudo está previsto no “Não havia luar”.

 

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Sobre juliana bernardo

Poeta, taróloga e mochileira. Publicou Carta Branca e Vitamina (Patuá, 2011| 2013). Desde 2012, organiza saraus, debates e rodas de conversa sobre escrita e publicação. Coeditou a Coleção Edições Maloqueiristas (2014), que reuniu 26 títulos entre poesia, ficção e teatro marginal. Cursou Filosofia, na USP, e escreve sobre as medicinas da floresta e o candomblé. Também atua como terapeuta de ThetaHealing. Agende sua consulta de Tarot ou TethaHealing! orugidodoleaonaocabenajaula@gmail.com 11 966815823 Ver todos os artigos de juliana bernardo

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